O Pé da Criança com TEA — Quando devemos nos preocupar?
A análise da marcha na infância é uma ferramenta essencial para compreender como a criança se desenvolve do ponto de vista neuromuscular, postural e funcional. Em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), essa avaliação ganha ainda mais importância: alterações como a marcha em ponta de pé são frequentes e podem impactar o desenvolvimento global da criança quando não identificadas e tratadas precocemente.
A Importância da Análise da Marcha na Infância
O padrão de marcha não envolve apenas o ato de caminhar, mas reflete a integração entre sistema nervoso, músculos e estruturas ósseas. Alterações nesse padrão podem indicar desequilíbrios que impactam diretamente o desenvolvimento global da criança.
Durante a infância, o corpo está em constante formação, especialmente os pés e o arco plantar. Estudos mostram que o desenvolvimento do arco ocorre progressivamente e pode sofrer influência de diversos fatores, como idade, peso e estímulos motores. Por isso, avaliar a marcha permite identificar precocemente alterações que podem comprometer o alinhamento corporal e a eficiência dos movimentos.
A baropodometria e a análise da pressão plantar são recursos importantes nesse contexto, pois permitem avaliar como a criança distribui o peso durante a marcha. Pesquisas demonstram que crianças com alterações neuromotoras apresentam padrões diferentes de distribuição de carga. Isso reforça a importância da avaliação precoce para prevenir compensações e disfunções futuras.
Principais Alterações do Pé na Infância
Existem diversas condições que podem afetar o desenvolvimento do pé infantil. Algumas fazem parte do desenvolvimento normal e se resolvem com o crescimento; outras requerem intervenção precoce para evitar compensações futuras.
🦶 Pé Plano (Pé Chato)
O que é: ausência ou diminuição do arco plantar, fazendo com que quase toda a planta do pé toque o chão.
Importante: é comum até certa idade, mas deve ser avaliado se persistir ou causar dor.
- Pé "reto", sem curvatura interna
- Pode causar fadiga ou dor ao caminhar
- Pode alterar joelhos e postura

🦶 Pé Torto Congênito (Pé Equinovaro)
O que é: deformidade congênita onde o pé nasce virado para dentro e para baixo.
- Pé torcido desde o nascimento
- Dificuldade de apoio correto
- Necessita tratamento precoce com gesso ou órteses

🦶 Metatarso Aduto (Pé Virado para Dentro)
O que é: desvio da parte anterior do pé para dentro.
- "Bico" do pé aponta para dentro
- Comum em bebês
- Pode se corrigir espontaneamente ou precisar de intervenção

🦶 Pé Calcâneo-Valgo
O que é: pé dobrado para cima com o calcanhar desviado para fora.
- Pé encostando na perna (flexão exagerada)
- Comum em recém-nascidos
- Geralmente tem boa evolução espontânea

🦶 Pé Cavo (Arco Muito Alto)
O que é: arco plantar excessivamente elevado.
- Pouca área de contato com o chão
- Sobrecarga em calcanhar e antepé
- Pode gerar instabilidade e dor

🦶 Alterações Funcionais da Marcha
Nem sempre visíveis só no pé, mas no movimento:
- Pisada pronada (pé "cai para dentro")
- Pisada supinada (apoio lateral)
- Marcha na ponta dos pés
- Joelhos valgos (em "X") associados
⚠️ Quando se Preocupar?
Procure avaliação com fisioterapeuta quando houver:
- Dor ao caminhar
- Quedas frequentes
- Desgaste irregular do calçado
- Atraso no desenvolvimento motor
- Deformidades visíveis nos pés
- Marcha na ponta dos pés após os 3 anos
Visão clínica importante: nem toda alteração é patológica — muitas fazem parte do desenvolvimento. Mas a avaliação da marcha + baropodometria + análise biomecânica permite diferenciar o desenvolvimento normal de uma alteração que precisa de intervenção.
🧠 Marcha em Crianças com Autismo (TEA)
A marcha em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresenta alterações frequentes, sendo a mais comum a marcha em ponta de pé (toe walking). Estudos mostram que cerca de 82,1% das crianças com TEA apresentam dificuldade na marcha normal, frequentemente utilizando a ponta dos pés.
A marcha equina pode estar relacionada a alterações sensoriais, especialmente no processamento tátil e proprioceptivo, e pode surgir precocemente, entre 12 e 24 meses de idade.
Principais Características da Marcha no TEA
- Apoio reduzido do calcâneo (marcha em ponta)
- Rigidez ou padrão repetitivo de movimento
- Alteração no equilíbrio postural
- Déficits de coordenação motora
- Instabilidade postural
🦾 Palmilhas Posturais em Crianças com TEA
As palmilhas posturais são um recurso importante dentro da abordagem fisioterapêutica para crianças com TEA. Evidências científicas indicam que as palmilhas podem influenciar a cinemática da marcha, promovendo melhor alinhamento e distribuição de carga, e atuam como estímulo sensorial plantar, ajudando na organização neuromotora.
Um estudo recente (2026) demonstrou que o uso de palmilha modificou parâmetros da marcha em crianças com TEA após aplicação imediata, reduzindo a marcha em ponta de pé e melhorando o padrão funcional.
🧩 Papel da Fisioterapia
A intervenção fisioterapêutica é fundamental e deve incluir:
- Treino de marcha e reeducação do padrão de pisada
- Estímulo sensorial plantar e proprioceptivo
- Exercícios de equilíbrio e coordenação
- Alongamento de cadeia posterior
- Uso de palmilhas posturais quando indicado
Entre os recursos utilizados, destacam-se as palmilhas posturais personalizadas. Elas atuam diretamente na reorganização das informações sensoriais dos pés, promovendo ajustes na postura e na distribuição de cargas. É importante destacar que o uso de palmilhas deve sempre ser indicado após uma avaliação criteriosa e acompanhado por um fisioterapeuta, pois o crescimento infantil exige ajustes frequentes.
⚙️ Baropodometria em Crianças: Como Funciona
A baropodometria é um exame que avalia a distribuição da pressão plantar durante a posição em pé (estática) e durante a marcha (dinâmica). É realizado com o paciente sobre uma plataforma equipada com sensores que captam como o peso do corpo é distribuído nos pés.
Na infância, esse exame é extremamente útil porque permite identificar precocemente alterações como pé plano, pé cavo, pronação ou supinação excessiva, assimetrias de carga e alterações na marcha. Em crianças com TEA, a baropodometria ajuda a analisar o apoio anterior excessivo (andar na ponta dos pés), a instabilidade postural e as alterações sensoriais que impactam a pisada.
Como o Exame é Realizado
- A criança fica descalça sobre a plataforma de sensores
- Análise estática: parada em pé, avaliando a distribuição de carga em repouso
- Análise dinâmica: caminhando sobre o equipamento, avaliando a marcha
- O sistema gera imagens coloridas: vermelho (maior pressão) e azul/verde (menor pressão)
A baropodometria auxilia diretamente na avaliação fisioterapêutica, na prescrição de palmilhas posturais, no acompanhamento da evolução do tratamento e na prevenção de alterações musculoesqueléticas. Esse exame permite uma abordagem individualizada, especialmente em crianças, pois o pé ainda está em desenvolvimento — a identificação precoce de alterações pode evitar compensações futuras nos joelhos, quadril e coluna.
Referências Bibliográficas
- DALTRO, M. C. S. L. et al. Avaliação da marcha em ponta de pé em crianças e adolescentes com TEA. Revista Brasileira de Filosofia e História, 2023.
- ALVES, A. M. S. Avaliação da marcha em ponta de pé em crianças com TEA. Repositório UNIFIP, 2024.
- SILVA, P. C. Marcha em pontas e perfil sensorial no autismo. Revista SPMFR, 2023.
- ALCALDE, K. G. P. et al. Efeito de palmilhas na marcha de crianças com TEA. UNESP, 2026.
- ALVES, M. P. et al. Tratamento da marcha em ponta no TEA. Research, Society and Development, 2024.
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